cercado girando girando à sua volta

o pássaro o pássaro preso

numa gaiola

quando você vai se libertar?

o pássaro e a tartaruga

escorregam num tombo

quem está atrás de você

atrás de você agora?

drakontomalloi:

John Singer Sargent - Nude Egyptian Girl. 1891

me deparei com esse trecho de um texto numa das redes sociais. o compartilho aqui.
penso que sirva um tanto e de muita boa mão aos propagadores xiitas (como também aos seguidores inconscientes/cegos) do absolutismo tolo e limitado da manjada e fascistóide ideia de “pureza”.

Parece que na medida precisa em que o espírito se impõe uma rígida disciplina e leis ao menos muito severas, ele deve levar em conta equivalente as embriaguezes e se perturbar com a própria existência destas, pois ele jamais está certo de não provar sua tentação ou seu remorso. Ele pode, no privado, exercer um constante domínio de si e conservar sempre o mais exato controle de suas antecipações instintivas ou, em público, restringir à formulação de evidências o exercício de suas faculdades, não propagar senão o exprimível e o definido, só avançar sobre terreno completamente conquistado, assimilado, e nada propor que não se possa justificar e que não seja parte inalienável de um sistema. A potência que essa austeridade confere ao espírito que a adota é de direito propriamente sem medida. Esse espírito obtém, de fato, por meio dela, tamanha coesão que se torna inexpugnável à maneira de um exército em que cada elemento tático em cada ponto se beneficiaria da força indivisa da totalidade dos efetivos. Nem por isso deixa de sentir a constante solicitação das embriaguezes. Melhor ainda, um espírito tão coeso é para elas uma presa ainda mais indefesa, sendo daquelas que se arrebata na totalidade. É que ele é unificado demais para se dividir e entregar apenas a parte do fogo no momento da vertigem: é inconcebível que ele não permaneça tão inteiro no espasmo quanto no cálculo. Igualmente disposto a um e rompido ao outro, é como se nele a detonação fosse tão explosiva justamente por se seguir a uma tensão severa demais.
A embriaguez de resto se manifesta como estado total, estendendo-se, virtualmente ao menos, sobre todo o teclado das atividades do ser, pois que todas consentem e se calam no momento em que a embriaguez exaspera apenas uma. Juntando a semiembriaguez da lucidez superior, de que fala Baudelaire, com aquelas que Nietzsche distingue, ou seja, as três embriaguezes das bebidas fortes, do amor e da crueldade, percebe-se facilmente que não há ponto em que o êxtase não possa tomar apoio, sem que no entanto a extrema sensação de potência que o caracteriza cesse de permanecer idêntica a si mesma. Quaisquer que sejam seus efeitos íntimos, seja lá que valor se lhes atribua, é certo que eles transportam os indivíduos e (salvo, num certo sentido, alguns tóxicos paralisantes que lhes provocam ademais também um sentimento de intensa e calma superioridade, ainda que de ordem contemplativa) lhes comunicam uma impressão de máximo de ser que lhes faz preferir ao resto de suas vidas esses raros instantes que logo lhes urge renovar.
Assim, além de interessarem o indivíduo no mais imprescritível de si mesmo, as diversas embriaguezes parecem constituir naturalmente, para ele, um estado violento face à sociedade e talvez testemunhar certa dificuldade da parte dele em se adaptar à vida coletiva. Eis aí pois, ainda, e talvez não seja a menor, uma oposição entre as embriaguezes e a inteligência: o destino imperialista desta e a desdenhosa resignação daquelas em se exaltar à parte e para si mesmas.

No entanto, a história dá a pensar que essa oposição não comporta nenhum caráter absoluto: é na medida em que a sociedade não sabe atribuir a devida parte às forças dionisíacas, desconfia delas e as persegue em vez de as integrar, que o ser se encontra reduzido a tomar apesar da sociedade as satisfações que deveria só dela receber. O valor essencial do dionisismo residia, de fato, neste ponto preciso: ele unia socializando, por meio daquilo que, mais do que qualquer outra coisa, separa quando seu gozo é individual. Melhor, ele fazia da participação no êxtase e da apreensão em comum do sagrado o cimento único da coletividade que fundava, pois, em oposição aos cultos locais fechados das cidades, os mistérios de Dionisos eram abertos e universais. Eles colocavam, assim, no centro do organismo social as turbulências soberanas que, decompostas, serão a seguir acuadas pela sociedade aos terrenos vagos da periferia de sua estrutura para onde ela rejeita tudo o que tem chance de desagregá-la. Esse movimento representa nada menos do que a mais profunda das revoluções e não é indiferente que o dionisismo tenha coincidido com o levante dos elementos rurais contra o patriciado urbano, e que a difusão dos cultos infernais às expensas da religião uraniana tenha sido acarretada pela vitória das camadas populares sobre as aristocracias tradicionais. Ao mesmo tempo, os valores mudam de signo; os polos do sagrado, o ignóbil e o santo, permutam. O que estava à margem com o tão interessante descrédito ligado a essa expressão, se torna constitutivo da ordem e de certa forma nodal: o associal (o que parecia tal) une as energias coletivas, as cristaliza, as subleva — e se mostra força de supersocialização.
Basta essa constatação para poder usar do termo virtudes dionisíacas, entendendo por virtude o que liga, por vício, o que dissolve. Pois basta que uma coletividade tenha podido encontrar nelas sua base afetiva e fundar a solidariedade de seus membros apenas sobre elas, à exclusão de toda pré-determinação local, histórica, racial ou lingüística, para assegurar, naqueles que as solicitam, a convicção de que elas são injustamente reprimidas numa sociedade que quer ignorá-las e que não sabe reduzi-las, para lhes dar o gosto e lhes mostrar a possibilidade de se agrupar em formação orgânica inassimilável e irredutível, para firmar enfim sua resolução de recorrer a essa estratégia sempre disponível.

"As virtudes dionisíacas", por Roger Caillois
(trecho da Acéphale n.3-4: Dionisos: http://culturaebarbarie.org/?page_id=719)

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(Detalhe, Dionisos - Guillaume Coustou, Lyon 1677 - Paris 1746. Terracota)

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as abelhas haviam feito mel no crânio do leão

http://elogiodasombra.wordpress.com/2014/05/09/543/

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        ♫♪

tentei eu  tanto

seduzir um daruma de neve

♪♪ nunca me deu qualquer bola até que

numa bela manhã de calor , ele derreteu

TAKUAN

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takuan soho possivelmente teve linhagem que chegou até mesmo aos templos modernos de shizuoka e ainda é transmitida. ele não fazia qualquer diferença entre a espada e o zen. em sua época, aconselhava que um criminoso impertinente q. tivesse cometido delito irreparável não deveria ter o corpo apenas utilizado para testar a qualidade das lâminas recém forjadas dos bushis, como era costume no caso de crimes menores, deveria sim é ter seu corpo cortado e separado numas doze partes, estas teriam que permanecer bem expostas em vários pontos da cidade para que servissem de exemplo. a cabeça lanhada, sem grande necessidade de detalhes, a não ser um corte minimamente rápido e preciso acima do pescoço, deveria ficar suficientemente estável num pedestal de madeira, em cima de uma prancha sob um lenço de papel tingido de vermelho escurecido pois embebido do excesso do sangue já um tanto grosso e viscoso, ela ficaria melhor mostrada numa praça central ou na entrada do vilarejo; as mãos, bem talhadas num corte acima da altura dos pulsos, com as palmas voltadas para cima, sem os nervos muito tensos fechando os dedos em punhos, ficariam na frente de estabelecimentos de comércio e casas de refeição; pernas e pés decepados sem muitos detalhes, podiam ser deixados em ruas próximas às saídas para as estradas em pequeninas jaulas de madeira; tronco e estômago suficientemente limpos de tripas que escorrem e de gordura amarelo-escura que descolam-se com ligeira facilidade dos ossos partidos e demais pedaços ficariam em outros locais de menos trânsito. assim deveria agir um  administrador razoável que zelasse por suas responsabilidades. é convenção q. algo que não apresente certo nível de contundência e dificuldade não pode ser considerado o caminho:

:O きびしいねバディ!

 



Olho de Lince

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quem fala que sou esquisito hermético
é porque não dou sopa estou sempre elétrico
nada que se aproxima nada me é estranho
                                    fulano sicrano beltrano
seja pedra seja planta seja bicho seja humano
quando quero saber o que ocorre à minha volta
ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
experimento invento tudo nunca jamais me iludo
quero crer no que vem por aí beco escuro
me iludo passado presente futuro
                                     urro arre i urro
viro balanço reviro na palma da mão o dado
                                     futuro presente passado
tudo sentir total é chave de ouro do meu jogo
é fósforo que acende o fogo de minha mais alta razão
e na sequência de diferentes naipes
                                      quem fala de mim tem paixão

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(Waly Salomão)

alguns estudiosos dizem q o sutra do coração foi primeiro composto em chinês e depois traduzido para o sânscrito e outras línguas, o q na verdade não me parece ter qualquer importância. algo meio parecido com as discussões a respeito de mais de um bodhidharma q teria ido até a china, um teria ensinado o zazen e o outro o vajramushti q se transformou nas bases do kung fu shao lin. é um sutra super resumido, “coração” tb tem aqui o sentido de “centro”, algo “basilar” ou “resumido”, com os dizeres de avalokiteshvara sobre a experiência direta da vacuidade. sumiram da rede com alguns sites q hospedavam essa versão do templo zu lai, q acho bem bonita, e q baixei já tem alguns anos, por isso a postei no meu canal do youtube.

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se alguém tiver curiosidade pode procurar traduções para o português deste sutra, é bem fácil encontrá-lo na rede, é um sutra bem popular que é lido todos os dias em templos da tradição do budismo mahayana,  não vou postar aqui porque não encontro o nome dos tradutores e acho importante apontar quem realizou o trabalho, e quando você tenta entrar em contato para perguntar algo a algum responsável pelos sites ou monges eles vêm com aquele papo furado típico (oh!) “não é preciso saber quem, é preciso estudar o sutra" e blá, blá, blá. se sentem superiores e querem mostrar algum conhecimento que seria algo "tipicamente budista" (mas apenas dentro da cabeça deles). é claro q é preciso estudar o sutra, e justamente se você tiver o nome dos tradutores você poderia mesmo tentar entrar em contato para realizar alguma pesquisa mais profunda. a verdade é que não confio em boa parte dos monges da sangha budista nos dias de hoje, no brasil, uma boa parcela tem uma atitude que quase beira a imitação barata de filmes antigos de kung fu, daqueles bem mongolóides mesmo, isso quando não são estúpidos e arrogantes, embora suportem a disciplina monástica, principalmente brasileiros, é tão perturbador que preferi continuar como ordenado leigo embora tivesse de minha parte surgido em algumas ocasiões vontade de ter aprofundado minha prática pessoal de zazen como monge. a sorte é q tive a oportunidade de estudar com alguns professores e praticantes que me passavam segurança, e não possuíam essa aparência falsa de "super heróis do dharma". não é algo muito distante das cenas artísticas, é um ego do tamanho dum bonde, porque, ao menos no zen, o dia a dia, as posturas, o cotidiano, é tudo muito estético e realizado de formas específicas, às vezes alguém acaba ficando "encantado" e força a barra do ridículo, e não são repreendidos pq alguns professores são da opinião de q eles deveriam aprender a lidar com isso sozinhos. "se algo cheira mal, coloque uma tampa" segundo o ditado confuciano, mas alguns na verdade nem percebem a situação de fato. outros têm a postura de que não deveríamos ser críticos, o q é bem comum dentro de algumas seitas de práticas espirituais, mas na verdade é algo muito negativo que encoraja a degenerescência intelectual, a seguir ensinamentos como zumbis e q é contrário mesmo ao ensino de shakyamuni, que encorajava a todo e qualquer praticante que testasse os ensinamentos e não os considerasse como verdadeiros apenas porque algum tipo de aparente autoridade disse que eram.